9 de novembro de 2008

Eu era feliz e não sabia (ou será que ainda dá tempo?)

Em alguns dias, desejo acordar com dezessete anos de novo - e nem é pelo colágeno abundante que continha naquela época, porque se fosse este o motivo, desejaria ter dezessete anos todo santo dia - e não conhecer tanto, não pensar tanto, apenas sentir. Tudo bem, aos dezessete eu era ridiculamente inocente e altamente idiota (e quem não o é?), além de particularmente estranha. Mas sentia, acima de tudo: achava que o importante na vida era sentir e fazer o que fosse necessário pra deixar que os sentimentos fossem livres e completos, não importando qualquer tipo de tristeza ou decepção que pudesse surgir como conseqüência.

Inteligente eu já era aos dezessete, mas o tipo de inteligência que habitava minha cabecinha naquela época era muito mais objetiva e racional; a emocional, a tal que julgamos adquirir com a idade e com as experiências que passamos, veio depois, bem depois. Era uma menina inteligente que se apaixonava a cada dia, uma nerd que suspirava, o patinho feio que sonhava em ser cisne mas queria prêmios, notas altas e um vestibular gabaritado nas melhores faculdades da cidade. Mal sabia o que ainda viveria pela frente e não me importava nem um pouco com isto. Ah, eu era idiota mas era mais feliz, e sequer fazia idéia disto.

Hoje sou menos inteligente na parte racional da coisa (cansei um bocado, até porque poucos são aqueles com quem posso compartilhar a minha inteligência e a minha cultura geral, sem falsa modéstia) e quase um "crânio" na coisa da inteligência emocional: avalio tudo, penso em tudo, não dou um passo à frente sem raciocinar e pensar nas (im)possibilidades envolvidas no processo. Sou quase incapaz de me jogar, me atirar de olhos fechados e de costas no trampolim, sem antes saber qual a profundidade da piscina, se ela está cheia e, caso eu tenha uma câimbra súbita, se haverá um salva-vidas (ao menos uma bóia que seja) pra me garantir. Mas isso tem conseqüências nada, nada agradáveis: nunca mais dei um suspiro sem sentir culpa ou sem avaliá-lo e retaliá-lo minutos depois. "Suspiro, sua louca? Volta já pra Terra que a vida não é assim!", diz minha consciência, amiga da madrasta-má, a autocrítica, sempre alerta, tal qual um escoteiro tentando ganhar medalhas no acampamento.

Daí um filme vem e, sem pedir licença nem mesmo avisar, me faz sentir meio morta, meio inútil, meio ridícula e me faz pensar: "Rá, isso é piada. There is no such thing as emotional intelligence, sorry to be the bearer of bad news. Você está apenas sob efeito de algum tipo de entorpecente como lítio, mesmo que produzido naturalmente pelo seu corpo - ou, quem sabe, andaram colocando doses de lítio triturado na sua granola". E me sinto ainda mais idiota do que aos dezessete, quando ao menos sabia sentir sem calcular tanto, sem economizar, sem ser tão mesquinha comigo mesma (e com quem mais esteja envolvido na coisa do sentir). Hoje eu desejo o anti-lítio, eu quero ser a maníaca-depressiva de outrora, que chorava e ria alternadamente, que era a mais feliz do mundo num minuto, pra ser a mais desgraçada das criaturas no instante seguinte. Quero amar e quero odiar de novo, quero ter acessos de raiva e rompantes de paixão como se o dia seguinte não existisse, quero sair na chuva e voltar gripada e com um sorriso na cara, quero entrar no mar de tailleur e sair rindo como uma louca.

Amanhã já não sei como vai ser, talvez esteja adormecida de novo logo após o café da manhã e siga minha vidinha tão cheia de inteligência emocional e tão vazia de suspiros e coração acelerado, não posso prever - é cômodo pensar que, daqui em diante, controlarei o que venha pra mim. Se é verdade eu não sei, tem sido até agora, de uns tempos pra cá. Quem sabe a dose definitiva de anti-lítio esteja por aí, só esperando pra ser colocada num copo de iogurte - tenho recebido doses minúsculas, de vez em quando, e até mando a madrasta-má e a melhor amiga catarem coquinhos quando as doses acontecem...

I'm so lonely, but that's ok
I shaved my head and I'm not sad
And just maybe I'm to blame
For all I've heard, but I'm not sure
I'm so excited
I can't wait to meet you there, but I don't care
I'm so horny
But that's okay, my will is good
Yeah, Yeah

9 comentários:

Sisa disse...

Line, eu sou do tipo que chega a parecer bipolar. Eu, chegando aos 30, me entrego quase totalmente a todos os sentimentos que possam vir bater na minha porta. Se é pra ficar feliz, eu fico simplesmente extasiada e idiota, se é pra ficar triste, eu fico deprimida e chorando. Acabo vivendo quente ou frio, e nunca me permitindo ser morna pra ninguém (muito menos eu mesma) me vomitar. Claro que nessas a gente quebra a cara e muitas vezes sofre horrores. Mas ainda assim eu acho que vale a pena.
Beijo!

Bridget Jones disse...

Aline, minha gata!

É muito difícil depois de algumas experiências, rejeitar tioda e qualquer "lição" de vida que tenhamos tido. Mas a vida vive pregando peças na gente e se a gente não se permitir cair nessas armadilhas do destino de vez em qdo, pode acabar perdendo coisas incríveis que a vida reserva pra gente.

Sofrer faz parte de tudo isso. Sofrimento sempre acaba. E a gente supera SEMPRE!

Beijo da maluca BRID

Fabio Fernandes disse...

Inteligência emocional é para o tato com os outros, a não ser que você precise dela para lidar com as várias "personalidades" dentro de você. Mande a sua consciência ir pastar quando você tiver vontade de fazer qualquer coisa que ela não queira fazer.
Eu mando a minha calar a boca de vez em quando, e isso já me trouxe excelentes resultados. Já tomei banho de chuva numa tempestade sinistra.. Eu e meu filho, jogando bola num campo de futebol.. Já correu e se jogou na grama molhada??? Ele nunca tinha feito isso.. Valia o risco, afinal de contas vistos do céu éramos minúsculos pontos o quê poderia inviabilizar receber um raio na cabeça.. enfim. Deu tudo certo, sobrevivemos, mas todo mundo quis me matar: Tá louco??? Viu quantos raios???
É realmente, foi perigoso, mas nada como viver e aproveitar o quê se quer. As gargalhadas que demos, compensaram os sermões.

É como costumo repetir: ...mas é só a minha opinião.

Bjokas.

iara disse...

algumas vezes me sinto tão como vc!
inteligente sempre me senti (nada modesta), inteligência emocional confesso que só adiquiri nos últimos 6 anos, mas tb hj em dia tô bem craque na coisa...melhorei montes!
meu racional sempre domina...mas to com o fábio, de vez em quando mando às favas, e vou me divvertir e raramente me arrependo..deve ser o momento que conto com a intuição!
adoro o que vc escreve, viu?
bj

Danielle Balata disse...

É muito bom mesmo quando agente tinha essa idade que tudo de mais dificil que tinhamos era passar no vestibular, sem saber que o que nos esperava na frente e na vida era mais complicado que isso..
Enfim..

Beijos e boa semana.

Rodrigo Vieira Ribeiro disse...

Passei por aqui vindo do "Guindaste" li seu post e gostaria de informá-la que, eu, aos 45 anos ainda quero voltar aos 17, mas que tenho ótimas recordações dos 30...

Com 17 eu era livre, forte e não sabia o que fazer com a liberdade e não tinha dinheiro.

Com 30 eu era livre, forte, tinha dinheiro, sabia o que fazer com a liberdade, mas ficava imaginando se eu voltasse aos 17...

Agora com 45 me arrependo de ter gastado minutos preciosos dos meus 30 anos pensando nos 17. Com 45 eu já estou é vendo a inclinação da ladeira e o chão chegando... ainda devagar... mas vai acelerando sempre.

Só posso aconselhar que vc aproveite mais, pois dos 30 aos 40 é que vivemos a maior e melhor parte das nossas vidas! Depois disso é só lembranças... até os 90!

(estou exagerando para ficar engraçado é claro!)

Abraços e divirta-se! Gostei do seu blog posso voltar?

Aline T.H. disse...

Sisa, eu tenho saudades de ser bipolar às vezes, já fui como você. Quem sabe eu consiga de novo, um dia (você me incentivou um bocado com aquele exemplo que me deu ontem, rs)...

Brid, baby, eu sei de tudo isso!! Mas quem disse que eu consigo colocar em prática? "Do as I say, not as I do" é meu lema!! =oP

Fabio, eu ando querendo tomar chuva de novo - já fiz muito disto - e escrevi isso exatamente porque a minha mesmice anda me incomodando demais, viu. E a cena que tu descreveu foi linda mesmo! Que bom que teu filho tem um pai assim, como você =o)

Iara, brigada, querida. A gente é realmente parecida em algumas coisas, e fico feliz que algumas pessoas me entendam! E obrigada, viu? Eu nem mereço tanto!!! =o*

Dani, por isso às vezes bate uma saudade. Mas é raro, viu, eu era idiota e estranha demais!!! rs

Rodrigo, eu entendo perfeitamente, e como você é novo por aqui, explico: eu NUNCA sinto saudades e amo meus 30, viu? Só que ontem tive saudades desse aspecto em particular - ser menos calculista - mas isso eu posso providenciar aos 30 também! E seja sempre bem-vindo, claro!

Beijos, you all.

Ingrith disse...

Por isso que eu digo "eu era feliz, não sabia e ainda reclamava da vida..." Hunf

Lekkerding. disse...

Nada a declarar...
Mas...
Oh.
(meu cérebro não processa nada desde domingo)