21 de setembro de 2008

Paradoxal

Poucas coisas me assustam ou me dão medo de verdade na vida. Aranhas, por exemplo, me dão PAVOR. Mas uma das coisas que me dão muito medo é a velhice desregulada. Sim, desregulada, e vou explicar o que é e o porquê do medo que sinto.

Envelhecer é o destino de qualquer pessoa que não tenha sua vida abruptamente interrompida por uma fatalidade qualquer, e é inevitável. Não tenho medo de envelhecer normalmente: ficar com os cabelos bem branquinhos (acho que nesta parte me adiantei um bocado, mas enfim), andar devagar, ver a pele perdendo o colágeno, a visão ficar mais dificil, esquecer um pouco de cada coisa e ter várias memórias do que vivi é mais do que normal, é necessário, faz parte da vida. O que me assusta é quando há um paradoxo corrente entre corpo e mente: a pessoa que fica doente mas tem muita lucidez ou o contrário, aqueles cuja mente envelhece rápido demais e o corpo ainda não mostra tantos sinais da idade. Conheço um caso de cada, e ambos me assustam horrores.

Fico pensando em como seria se eu ainda gostasse de caminhar, ir à padaria ou ao cinema a pé, mas meu coração - que antes era muito, muito bom - não quisesse me deixar fazer tais coisas. Ou se meu olhos não tivessem mais capacidade de me deixar ler o jornal ou um livro, enquanto minha mente ainda fosse ávida por informação, por palavra. Ainda, se não pudesse comer os alimentos que mais gosto nunca, nem um dia que fosse, enquanto ainda me lembrasse o gosto deles. Acho que me sentiria uma prisioneira da matéria e ficaria ou louca, ou deprimida.

Mas também imagino o que leva uma pessoa que caminha perfeitamente, cujo coração parece o de uma criança, que tem todas aquelas 'taxas' muito chatas contidas nos exames de sangue e enxerga tão bem quanto há dez anos a ficar velho de repente no pensamento. Não querer sair, achar tudo absurdo e dizer que 'no meu tempo era muito diferente', entristecer como se a vida estivesse próxima do fim, mesmo que seu corpo insista em dizer o contrário. Me coloco no lugar de uma pessoa assim e imediatamente fico triste, cabisbaixa e até revoltada, porque há um veículo que ainda move essa pessoa para onde ela quiser, ainda há olhos para ler e essa pessoa ainda tem capacidade para fazer as coisas que quisesse - mas ela simplesmente deixou de querer. E deixar de querer é triste demais.

Penso, penso e sinto. Muito. Não posso fazer nada sobre isso, a não ser tentar ser uma boa pessoa para ambos os 'meus' casos e tentar aprender com eles o que puder. Essa impotência é comum a todos nós, eu sei, mas continua sendo incômoda da mesma forma. Tenho medo de ficar assim, mas quero arriscar chegar lá e pagar pra ver, não sou covarde. Mas isso não significa que não farei de tudo para evitar.

8 comentários:

Taynar disse...

Acho que essa é uma das piores perdas que existe.
Morrer em vida.
Desde criança eu jurei que não ia ser assim. Sempre acreditei que devemos queimar tudo, pra quando acabar, não olharmos pra trás com cara de 'eu-devia-ter-feito-mais'.

O problema do ser humano é esse. Se acomoda e não luta. Morre, e nem sabe. Continua vivendo a vidinha mediocre de sempre.


Como sempre, o texto tá lindo.

Beijos, moça

Lekkerding. disse...

É... A vida.
Alguns gostam de deixá-la passar. Nós gostamos de pegar esse trem e deixá-lo levar.

Beijo.

Danielle Balata disse...

Você descreveu uma coisa que eu na minha vida real estou passando agora.. meu pai sempre foi amante da leitura, e eu aprendi[graças a Deus] a gostar da leitura com ele, mas de uma semana para cá ele tá passando por um probleminha que por uns tempos[se Deus quiser]vai retornar a visão.´É muito doloroso, quando as coisas são tiradas assim abruptamente, e isso que tu falaste, que muitos tem sede ainda de fazer as coisas é verdade. Poderiamos ter o dom de pararmos so quando quisermos, e não assim do nada por causa de uma doença.

Beijos

Diego Gonçalves Amaral disse...

envelhecer com qualidade é difícil, principalmente no brasil... temos que aprender a lutar contra os acidentes, contra o comodismo e contra a gente mesmo...

bjs

KiKa...E=MC2 disse...

Tow vivendo uma fase tão fofa que gostaria de parar tudo agorinha msm...Num dá né... :( snif

Aline T.H. disse...

Taynar, a coisa de morrer e não se dar conta me apavora mesmo, e também sou a favor de viver dez anos a mil, como dizia Lobão. E obrigada pelo elogio =)

Lekkerding, eu pego o trem e não saio até que tenha andado em todos os cantos possíveis dele!

Dani, te desejo (e ao seu pai) muita sorte e saúde, viu?

Diego, nesse ponto, digo que envelhecer é difícil em qualquer lugar. Uns tem mais qualidade de vida do que outros, claro, mas mesmo assim a velhice nunca é cômoda por completo. E lutar contra si mesmo é a chave, ao meu ver.

Kika, não dá pra parar mesmo, né? Nem sei se seria tão bom assim...

Beijos, pessoal!

Aimê Elisa disse...

Olá! Nova por aqui... to chegando, dá licença! rs

Sabe o que achei de pior no seu post? É que me vi nele... Sabe aquela pessoa forte, que todos os amigos e pessoas ao redor admiram, e acham que ela é forte, está sempre sorrindo, feliz da vida, sem problemas algum? Mas que lá no fundinho, toda vez que alguma coisa da errado, cria um desespero, uma vontade de sumir, de nunca mais olhar na cara de todas aquelas pessoas que conhece? Eu sou assim. E ainda não sei por que! E eu sei que não deveria me sentir assim, mas ás vezes não consigo... simplesmente um paradoxo em mim mesma.

Parabéns pelo blog!
Beijo e até!

Aline T.H. disse...

Olá Aimê, seja bem-vinda!

Acho que todos nós somos um paradoxo, eu vejo assim ao menos. Uma vez na vida todo mundo se sente o pior dos seres, e é normal.

Volte sempre, viu? E obrigada!

Beijo