20 de outubro de 2008

Agridoce

Resolvi transparecer, aparecer e me mostrar. Caiu a armadura, caiu o capacete, derreteu a maquiagem e o penteado foi embora com a chuva que ainda cai. Fico nua de uma vez, porque nada é mais velado e misterioso que a nudez de alguém - mesmo que seja a da alma. Mostro minha mente como num microscópio e o coração como numa cirurgia cardíaca.

Eu sou péssima, sou exigente, sou responsável, sou mandona, faço cara feia, xingo vários palavrões e não hesito nunca em pisar com salto agulha quando é preciso. Ando sempre com o semblante fechado, antipática e apressadamente. Não sinto, simplesmente raciocino.

Eu também sou ótima, boazinha, irresponsável, paparicadora, vivo sorrindo e dizendo coisas bem singelas, além de (quase) sempre pensar mais nos outros do que em mim. Ando quase que dançando, sorrindo e desejando bom dia a quem passe, devagar e olhando sempre a paisagem de onde vou. Tento sentir o máximo que posso, mesmo que um simples pingo de chuva.

'Cause it's a bittersweet symphony, this life
Trying to make ends meet
You're a slave to money then you die
I'll take you down the only road I've ever been down
You know the one that takes you to the places
where all the veins meet yeah


Mas não me separe como se uma fosse independente da outra. Sou duas, sou dez, sou um milhão, mas sou só eu. Aquela que reza toda noite mas blasfema nos momentos mais fúteis, a que acarinha enquanto esfola, a que sorri enquanto xinga e a que faz cara de séria quando diz as mais ternas palavras. Sou uma mulher que, quando escreve pra si, é lida por alguns e, quando escreve pra todos, quase ninguém lê. Passo pela vida numa bicicleta sem freios, como nos tempos de criança fazia - e foi naquele tempo mesmo que aprendi a andar sempre com joelheiras, cotoveleiras, capacete e, quem sabe, até um colete. Me jogo sempre, me dôo pouquíssimo e, quando faço isto, ainda assim o faço com uma reserva própria que não pode ser tocada.

No change, I can't change
I can't change, I can't change
But I'm here in my mold
I am here in my mold
But I'm a million different people
from one day to the next
I can't change my mold
No, no, no, no, no, no


Houve um tempo, sim, em que andava de bicicleta nua, me doava acima do que tinha pra dar e era só uma. Com o tempo, os tombos e as falências, aprendi. Aprendi a medir, a segurar, a me proteger e até a cair - porque cair é sempre necessário e faz bem, desde que não seja uma queda que resulte em invalidez permanente ou morte. E mesmo tendo aprendido, não fiquei amarga, ao menos na parte mostrada em cirurgia, onde guardo um pouco de açúcar e afeto ainda.

Well, I never pray
But tonight I'm on my knees yeah
I need to hear some sounds that recognize the pain in me, yeah
I let the melody shine, let it cleanse my mind, I feel free now
But the airways are clean and there's nobody singing to me now


Esta sou eu, doa a quem doer, mesmo que este quem seja eu mesma. Veja só, estou nua e nunca fui tão misteriosa, imperfeita e coberta como agora. Essa é a maior nudez que posso dar a alguém, a mais embaraçosa, a mais aberta e a mais reveladora... Ainda assim, existem partes perfeitamente ocultáveis quando se está nua e nelas estão alguns segredos que nem eu mesma vejo no espelho quase - a visão não me agrada, só olho nestes lugares quando é absolutamente indispensável que eu o faça. Acho que você nunca verá estes lugares, ninguém verá estes lugares de novo. Ao menos não com tempo suficiente para vê-los o quanto seria preciso a fim de enxergá-los de verdade.

A não ser que você enxergue muito, muito bem e raciocine muito, muito rápido.

*Trechos de Bittersweet Symphony, The Verve

17 comentários:

Lekkerding. disse...

Lindo. Sem mais.
Beijo

Ingrith disse...

Vc anda tão inspirada esses dias, rs

Sisa disse...

Lindo. Me identifiquei com a parte de doar acima do que tem que dar. Eu sempre fui assim, e sempre tomo tombos com isso. Aí eu levanto e novamente dôo além do que tenho pra dar. Não sei ser diferente, pelo menos por enquanto.
Beijos e obrigada pelas palavras lá na Casa. :o)

A Outra disse...

aiiiii
minha cara metade...

eu vou ai, viu??
kkkk

bjsss

iara disse...

sabe, adoro quando me acho tão completamente bem descrita em outro alguém. deve significar que não sou tão maluca assim? ou somos deliciosamente complexas e malucas?
bj e adorei.

Nem Li disse...

HAUiaAHuiahai

A-do-re-iii a descrição do blog!

Aline T.H. disse...

Lekkerding, obrigada =o) Vindo de você...

In, linda... Ando? Sei lá. Talvez. Quem sabe? ;-) Brigada, baby!

Sisa, a gente só aprende caindo e levantando, e mesmo assim na hora certa. A sua vai chegar e você nem vai perceber...

Outra, eu e você nem podemos conversar estas coisas porque sempre concordamos e qualquer dia destes colocamos fogo no mundo, rs. E TU VEM QDO??? =oD

Iara, brigada, linda!! Ah, a gente sempre se acha na loucura alheia, mesmo que só um pouco...

Nem Li, bem-vindo! E que bom que gostou... A gíria eu sempre usei, um belo dia resolvi que seria o nome da minha casinha!

Beijos, all!

Bridget Jones disse...

Eu já disse pessoalmente e digo de novo agora: Inspiração ímpar e de uma sensibilidade fora do comum. Arrepia a alma da gente qdo lê...

Beijo

Homem do Cafezinho disse...

Quedrida, todos somos muitos e unos, nos pensamos separados mas somos indivisíveis...não existe essa história de Lado Negro e Lado Branco, é tudo um Grande Cinza!!!

Como diz um dos meus mentores:" Eu acredito no poder da Força, mas não em Midi-Chlorians!!!"

Aline Dias disse...

Temos de ser ponderados. Adorei o blog ;)

Aline T.H. disse...

Brid, brigada =) E a sua opinião é importante, sim!

Homem do Cafezinho, eu espero que realmente sejamos coloridos - não cinzas, que cinza me deprime... Mas sim, de todas as cores!

Aline, xará, seja bem-vinda! E temos de ser equilibrados, diria ;-)

Beijos, babies.

O Profeta disse...

Porque o pensamento é milhafre
O infinito e o incomensurável
O orvalho das pequenas coisas
Uma breve prece, uma aventura notável

O sonho de hoje voa no amanhã
Esta terra prende-me os pés
Um fruto maduro é repasto de pássaro
Um caminho feito de lés a lés


Boa semana



Mágico beijo

Fabio Fernandes disse...

A nudez só se torna embaraçosa na companhia de estranhos, mas isso depende do quanto você se importa com a opinião de terceiros.. Resguardar uma parte de si, é um ato de astúcia já que todos nós temos um "eu" que é só nosso, quase ninguém o conhece além de nós mesmos. E é esse "eu interior" que devemos pensar bem antes de expô-lo, comparável ao peito aberto com o coração exposto.. Se arriscaria a mostrá-lo? Eu só o faria se tivesse plena confiança de quê ninguém mais o veria.. e você???

Aqui, apaguei os posts antigos, seguind os conselhos de uma blogueira querida.. mas se quiser conferi-los: http://devaneiosdeumqualquer.zip.net/

Valew pela visita.
Bjokas.

Rô disse...

Que título inspirado!

Empresária neuróticA disse...

Eu tou numa fase assim, meio "homem do cafezinho"... E não vejo problema com o cinza :) Bjs, fiquei feliz com as boas notícias, viu?

Conde Vlad Drakuléa disse...

Genial, gostei muito!!! Beijos do conde!

Aline T.H. disse...

Profeta, obrigada!! Beijo!

Fabio, a nudez é sempre desconfortável com estranhos, sim, mesmo que não me importe a opinião destes em nada. O problema é a nudez com quem se conhece, mesmo que pouco... E mostrar o coração a gente mostra, mas o que tem por fora dele, mesmo que batendo. Se alguém resolve abrí-lo à base de bisturi... Tem que ser especialista. E nem serei eu a escolher se "mostro ou não mostro", não vai depender da minha vontade ou segurança ao fazê-lo... E fui na sua casa antiga, já. E você ainda não respondeu à minha pergunta... Beijo!

Rô, vc gostou? Agora fico me sentindo até inteligente, hehehehe. Saudades, gata, beijos.

Manu, a gente é mesmo de fases, não adianta... E eu só uso cinza se tiver vermelho junto. Ou brilho! E obrigada pela torcida. Deixa meu negão voltar da oficina que a gente marca de se ver, enfim... Beijão!

Conde, obrigada e seja muito bem-vindo! Beijo!