6 de agosto de 2008

Sempre há uma Luísa

O fato de não ser um modelo de beleza universal não incomodava Luísa – ela sabia que seu charme e sua inteligência eram muito mais atrativos, agora que já não tinha mais 18 anos – mas era realmente mais bonita do que ela própria pensava. Por conta disso, acreditava que devia estar sempre perfeitamente apresentável, já que a genética não lhe tinha sido tão generosa: andava absolutamente impecável na forma de vestir, de acordo com as ocasiões, o horário, o local. Sempre chamara a atenção num primeiro momento por onde quer que fosse. Mas apenas num primeiro momento.

Sua atitude passiva e sua insegurança quanto à parte exterior faziam com que Luísa se apagasse depois da entrada triunfal e só chamasse a atenção de algum homem novamente quando abrisse a boca para sorrir ou conversar – tinha um sorriso lindo e falava tão bem – coisa que nem sempre acontecia em eventos maiores, cheios de gente desconhecida ou com algumas pessoas conhecidas demais. O resultado desse paradoxo é que Luísa vivia cabisbaixa, pensando que seus atributos mais fortes não eram suficientes para fazê-la conhecer alguém interessante. Tinha namorado por dois anos, mas não deu certo – sua subserviência e insegurança atrapalharam o relacionamento, e ela achava que o motivo era a sua ‘não-beleza’. Assim, tomou uma decisão que mudaria sua vida (ao menos ela pensava assim): faria todas as cirurgias plásticas que precisasse para sentir-se mais bela.

Rosto (nariz, queixo e botox nos lábios), seios (aumentou-os), lipoaspiração nas coxas e na cintura. Feita a recauchutagem, Luísa passou seu mês de férias praticamente sem nem pôr o nariz na janela, recuperando-se do que ela acreditava ser a melhor decisão que tomara até então em sua vida. E o resultado final era realmente uma obra-prima: Luísa tornou-se uma das mulheres mais lindas já vistas naquelas bandas do Rio de Janeiro. Aos poucos, conforme era liberada pelo médico, passou a freqüentar a praia nos fins de semana e deixou aquele tom branquinho da pele de lado, bem como as marcas de biquíni (quase inexistentes, antes da reviravolta) maiores, substituídas por um fio dental e um sutiã cortininha. Sentia, então, que agora encontraria aquele alguém por quem tanto ansiava.

Em sua primeira saída à noite totalmente liberada dos cuidados pós-cirurgia, usou a roupa nova que tinha comprado para a ocasião: uma blusinha frente-única, com um decote bem generoso na frente e costas de fora, e uma mini-saia bem justa, ambas pretas, com uma sandália de salto agulha bem alto, dourada. Estava vestida para matar. Mal entrou na casa noturna aonde fora e dois caras vieram falar com ela e a amiga, e Luísa sorriu antes mesmo de dizer oi – nunca havia feito isso antes. Eram bonitos, os caras, e Luísa aliou seu charme e sua inteligência pré-existentes à beleza que agora, em sua opinião, possuía. Ficou com o mais bonito dos dois, e acabaram a noite num motel.

No dia seguinte, Luísa estava tão feliz com sua conquista que não se continha e dançava pela casa. Esperava a ligação do homem perfeito que havia conhecido na noite anterior, sem duvidar que esta era apenas uma questão de tempo – e curto. Nunca aconteceu, a tal ligação. No final de semana seguinte, a mesma rotina: roupa sexy, noite, um cara gato, ficada, motel. E nenhuma ligação. E assim passaram-se meses, um ano, dois.

Hoje em dia, cinco anos depois, Luísa ainda sai vestida para matar, perfeitamente bronzeada, escolhe com quem quer ficar e, na maioria das vezes, termina suas noites num motel. Poucos foram os homens com quem esteve mais de duas ou três vezes. As amigas a têm como um modelo a ser seguido, a mulher-poderosa da turma. Luísa sorri e joga os longos cabelos castanhos e lisos, como se gostasse do tal título. Mas a verdade é que ela continua sem encontrar o tal alguém e às vezes chora baixinho pelos cantos da casa, no frio da cama vazia. Lembra do ex-namorado (aquele com quem ficou por dois anos) e resolve ligar pra ele numa quarta-feira, antes do futebol na tevê – que ele não perde por nada, ela sabe que ele estará em casa. Antes que alguém atenda, ela desliga. E volta a chorar baixinho, pois hoje sabe que não lhe faltava peito, bronzeado ou um nariz mais fino, mas sim atitude. E essa não vende em farmácia ou é implantada da mesa de cirurgia.

9 comentários:

Cinthya Rachel disse...

putzzzzzzzzzzzzz! adorei o texto. fiquei esperando o momento que algum cara fosse deixar uma nota de 100 no criado mudo.

Alice ainda mora aqui disse...

Gatá,
Vc não sabe como eu precisava ler isso.
Ahadzô!
besos

Aline T.H. disse...

Cin, brigada, gosto quando quem lê fica querendo saber o que vem depois!!

Alice, seja bem-vinda! E que bom que ajudei! =)

Beijocas, meninas.

Leonardo disse...

Muito bom! Adorei seu blog. Posso te colocar nos meus links?

Aline T.H. disse...

Leonardo, obrigada, bem-vindo e fique à vontade.

Beijoca.

iara disse...

parabéns aline!
muito bom ...tantas luizas existem por aí.

Aline T.H. disse...

Brigada, Iara! Beijão!

Adriana disse...

Guria, muito bom!
Além de atitude falta auto-estima.
Essa anda em baixa na maioria!

Aline T.H. disse...

Adriana, bem-vinda!! E concordo contigo, a mulherada acha que tem que ser capa de revista e que nunca tá bem. Sempre me lembro da letra de "Sunscreen", aquela frase 'don't read beauty magazines, they'll only make you feel ugly'.

Beijoca!